Se tomei a decisão certa só o tempo pra me dizer, mas eu ainda me lembro
das erradas que fiz. Lembro do desespero crescente de estar em mais um
relacionamento fadado ao fracasso justificando meus esforços na frase “mas eu
gosto dele”. O que era esse gostar, afinal de contas? Lembro das promessas
irracionais que recitava com a convicção de uma criança que tenta evitar o
castigo. Lembro que, dentro de mim, eu sabia o quão tola soava ao pedir chances
e mais chances sem qualquer possibilidade de retorno, e mesmo assim não fazia
nada. Outro dia, o amor passou por mim. Fingi que não vi. Não me leve a
mal, mas eu já conheci muitos caras por aí. Distribuí oportunidades que
certamente sequer foram acatadas. Eu só queria que desse certo, tanto que
deixei de lado os pré-requisitos que, geralmente, nos poupam as dores. Até que
entendi que ceder faz parte, mas se submeter é loucura. Parece papo de alguém
desacreditada, talvez até mal-amada, que ainda está em busca de uma metade que
sequer lhe falta. Não é porque minhas prioridades mudaram que eu deixei de lado
minhas preferências. Levei a vida inteira pra ser quem sou e já nem me
espanto se amanhã me reinventar outra vez. Eu vivo por mim, seguindo minhas
vontades, desviando dos meus medos, e aqui ou ali pegando um atalho da paixão à
solidão. Já me costumei, inclusive, com a angústia de quando ambas se
encontram, e acabo me vendo sozinha mesmo acompanhada. Mas hoje, sobretudo,
respeito meu tempo. Não dá pra se recuperar da noite para o dia, sejamos
francas. Como eu poderia fazer bem à alguém quando maltrato a mim mesma?A gente
pensa que entende como isso funciona, mas se perde ainda mais a cada pista. A
gente acha que por não fazer nada de errado temos como recompensa o gostar
recíproco de quem nos dedicamos. A gente, no fundo, espera não ser aquele que
gosta demais, aquele que nitidamente estaria disposto a tudo, mas torcemos em
silêncio que tenhamos quem lute por nós. Já cheguei a duvidar do amor mais
vezes do que gostaria. Sempre me pareceu uma equação falha em que duas ou mais
pessoas que se atraem procuram meios de se repelir. Já acreditei que amor era
também vivenciar o medo porque é impossível conhecer tão bem a si mesmo, quem
dirá, a quem temos ao lado. Ou seja, quando não é um tiro no escuro? Às vezes,
acho que eu e ele não fomos feitos para ficar juntos, e daí me pergunto “será
que alguém já foi?“ Quando olho a minha volta está todo mundo tentando se
desvencilhar ou não se apegar a uma relação. Temos medo, sim. Medo de sofrer,
medo de não correspondido, medo de ficar por baixo. Quem faz dar certo é quem
tem coragem. Quem engole a seco os riscos de um coração partido em prol da
união de vários cacos. Porque, no fim das contas, estamos mesmo estilhaçados e
procurando nos recompor ao menor sinal de compaixão alheia. Não tem segredo,
sabe? Se você quer viver esse grande amor tem que morrer de amores todos os
dias. Daí é só uma questão de tempo encontrar quem esteja disposto a enfrentar
seus próprios medos por ti. Deixa o amor lá e eu aqui. Cedo ou tarde, a gente
se esbarra de novo. E pode ser que eu acabe por segurá-lo com as próprias mãos
e tente não deixá-lo ir. Não seria a primeira vez, aliás. E nem será a última.
A gente sempre pode investir em alguém, dar atenção para aquela vozinha que nos
diz ao pé do ouvido que vale a pena. Tudo é uma questão de oportunidade e
interesse. Mas não é todo dia que estamos tão seguras, e nos sentindo tão bem
conosco que podemos dizer "Calma, fica aí na sua. Vai chegar a hora de te
dividir, mas agora, eu sou minha.
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